EAG

      Reminiscências Release 1.2

       Márcio era um amigo de serviço e durante os bate-papos de hora de almoço e as paradas eventuais para um "último cigarro" nos relatava que estava sentindo uma dificuldade enorme para parar de fumar. Nos contava que acordava tremendo e sentia uma necessidade incontrolável de fumar mais um.  O cigarro fazia parte do cotidiano de Márcio, muito embora ele estivesse determinado a quebrar esta simbiose-sádico-imposta.

      Neologismo é o processo de criação de novas palavras. Criei essa: -
SSI (Simbiose-Sádico-Imposta).

      1 –  SSI é mutante.  
Possui um gene lingüístico que  a partir do momento em que a gente percebe que o ato de fumar retira mais do que doa ele se ativa e SSI transforma-se  em PSI (Parasitose-Sádico-Imposta).

      2 – SSI é sádica. 
Pois, a parte envolvida sofre conseqüências ruins (o hospedeiro tem muitas chances de morrer de alguma enfermidade relacionada ao ato de fumar), mesmo assim há o desejo físico e psicológico de continuar o relacionamento.
     
      3 – SSI é imposta.   
Pois, mesmo sabendo-se das conseqüências ruins, continua-se o incentivo para o ato de fumar. Fábricas significam empregos em diversos setores da economia, significam impostos, significa muita gente envolvida na cadeia produtiva, de logística e propaganda. Estas coisas geram bolsos cheios de “dindin” à custa da miséria alheia. Posso disser também que é imposta pela dependência física e psicológica. É irônico, mas é bem assim ....
    
      Márcio era hebreu e na jovialidade dos seus 25 anos, já havia morado em um kibutz (um tipo de acampamento judaico http://pt.wikipedia.org/wiki/Kibbutzim ) em Israel,  e já havia morado nos Estados Unidos. Nos contava suas impressões sobre esses lugares e algumas aventuras vividas por estas paragens.

       Bem, o ano era 1978.
 
Veja alguns fatos da época.

1 - 28 de março: O presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, faz sua visita de três dias ao Brasil e é o quinto presidente norte-americano a                  visitar ao país.
2 - 8 de julho: Um incêndio destrói o acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
3 - 4 de agosto: Presidente Ernesto Geisel assina o decreto-lei, que proíbe greve nos setores de segurança nacional e  serviços públicos em todo o país.
4 - 13 de outubro: O Congresso Nacional do Brasil promulga a Emenda Constitucional n° 11, que extingue o Ato Institucional n° 5.
5 - 14 de outubro: Aberto o canal de desvio do Rio Paraná para permitir o arranque das obras da usina hidroelétrica de Itaipu.
6 - 16 de outubro: General João Batista Figueiredo é eleito presidente do Brasil pelo colégio eleitoral.
7 - 27 de outubro: A Justiça responsabiliza a União pela morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida nas dependências do DOI-CODI.
8 - 27 de dezembro: Entra em vigor a nova Lei de Segurança Nacional.
9 - 29 de dezembro: Presidente João Figueiredo assina o decreto que revoga o banimento de 122 brasileiros e extingue a Comissão Geral de Investigações.

       Vivíamos um período de transição conturbado (alguns querendo esconder os mandos e desmandos e outros querendo descobrir).  Nesta época um contingente militar invadiu a faculdade em que eu estudava, não sei por que, só sei que eu estava no banheiro e escutei o corre-corre ........

       Era assim, o ambiente universitário era vigiado.  Havia passeatas dos estudantes em protesto contra a Ditadura Militar. Era um momento
de crises político-sócio-econômicas. Lembro-me de um fraseado de nosso principal governante: - "Eu prendo e arrebento".

      Durante os bate-papos de hora de almoço, alguém comentou sobre um livro chamado "1984" de George Orwell. Era um livro difícil de se encontrar, lê-lo era meio-que-proibido, uma literatura não recomendada para o momento histórico que vivíamos.... . Falava sobre um  "Grande Irmão" que espionava e controlava a vida dos pobres habitantes do território imaginário criado por George Orwell .... Bem, li. Tenho o livro, ele está em algum lugar de minha humilde residência.

      Posso narrar mais alguma coisa sobre o enredo, mas não o farei .....(  http://pt.wikipedia.org/wiki/Nineteen_Eighty-Four  )

     Nos dias de hoje, espionar as mazelas da miserável condição dos relacionamentos humanos virou programa de grande audiência em várias  emissoras de TV.
     
      Foi nessa época que sofri um acidente de moto quando me dirigia ao lugar onde eu dava aulas (bem isto fica para uma outra vez)....!


PS.

Manuel Bandeira, escritor modernista do século 20, compôs um poema metalingüístico sobre :

"Neologismo"

Beijo pouco, falo menos ainda
Mas, invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar
Intransitivo;
Teadoro, Teodora.



Abraços.

Emildo Avelar Gama.


                                  FOI ASSIM Release 1.2

         É possível um pombo ter superstição? A superstição humana é um fenômeno complexo e sua história de desenvolvimento na vida das pessoas ainda não é compreendida. A despeito da complexidade, os fenômenos, ou aspectos deles, tem sido investigados pelos cientistas por meio de modelos animais. Skinner chegou a estudar o efeito da liberação de alimento em intervalos de tempo fixo e variável em pombos. Independente do que os pombos fizessem em uma caixa, um alimento era liberado e o pombo podia então consumi-lo. Ele observou que os pombos, durante algum tempo passavam a se comportar como se a comida estivesse associada ao que eles estavam fazendo. Um dos pombos passou a mover a cabeça para um lado e para o outro, enquanto outro dava voltas na gaiola, e assim por diante.            Skinner chamou esse padrão de comportamento supersticioso. Seus trabalhos foram pioneiros nesta área e impactantes para toda uma geração de pesquisas sobre superstição na psicologia experimental.                                                                                                                                                                  Burrhus  Frederic Skinner.
                                                                                                     
            Eu estava na parte mais alta de uma torre de pedra. De pé à  beira do pináculo   minha visão era muito precisa . Apreciei um céu azul com algumas nuvens que passavam placidamente, o vento era muito suave.  Havia um lago em uma piscina de pedra bem aos pés da torre, o vento soprava suas águas límpidas que formavam pequenas ondas, elas batiam nas margens e retornavam  encontrando-se com as novas ondas formadas pela brisa suave.  O dia estava gloriosamente aprazível.  Abri meus braços, olhei para eles e percebi que as penas estavam nascendo . Elas não haviam se desenvolvido plenamente ainda, algumas eram apenas penugens  de cores azuladas claras , outras mostravam um desenvolvimento vigoroso e um dia seriam penas magníficas.  Foi assim, com essas imagens do sonho, que acordei depois de  dias na UTI em coma induzido,  após o  infarto.

          Há certos eventos que não percebemos de modo consciente; eles permanecem, por assim dizer, abaixo do limite da consciência. Eles aconteceram, mas foram absorvidos de maneira subliminar.”                                                                                                                          Carl Jung. 


         A palavra “subliminar” vem do latim e significa “abaixo do limite”. Os psicólogos a empregam para se referir ao que está abaixo do limite da consciência.. Para entender verdadeiramente a experiência humana, precisamos compreender tanto nosso consciente quanto nosso inconsciente e como os dois interagem.
       Nosso cérebro subliminar é invisível para nós, porém influencia nossa experiência consciente do mundo de um modo fundamental – a maneira como nos vemos e aos outros, o significado que atribuímos aos eventos da nossa vida cotidiana, nossa capacidade de fazer julgamentos rápidos e tomar decisões que às vezes significam a diferença entre a vida e a morte, as ações que adotamos como resultado de todas essas experiências instintivas.   
                                                                                                                 Leonard Mlodinow.         

            Um  conjunto de eventos  se alinhou de forma tal que me deram mais uma oportunidade .: 
 - O amor  de minha família me conduziu   rapidamente ao Hospital , a triagem   percebeu que o meu caso era grave , o médico plantonista coincidentemente era um cardiologista  e me atendeu prontamente , existia um leito disponível no momento, existia uma vaga na  UTI,  os enfermeiros  me vigiaram   para acompanhar e corrigir , quando preciso,  o processo de recuperação, os atendentes trocaram minhas roupas e limparam meu corpo e  me alimentaram, a lavanderia proveu roupas limpas para a troca diária ,  a cozinha proveu o necessário para  alimentação , o ambiente era higienizado  com  freqüência , médicos  diariamente passavam e observavam minha ficha de acompanhamento, pediam novos exames quando necessários , receitavam este ou aquele remédio que  era ministrado na quantidade e hora certa.  O alinhamento dos eventos perceptíveis  foram muitos ,  me perdoem os amigos que permaneceram  invisíveis  e  não foram mencionados pela  minha  capacidade  de   observação limitada. 


        Penso que a Administração Hospitalar   funcionou adequadamente ......



            Tudo isso ali, naquele   que atende muitas pessoas e que e às vezes pede para a família do paciente  comprar um remédio que não está disponível no estoque  e é necessário para uma melhor recuperação do doente, naquele que muitas vezes não existem leitos para atender a todos , naquele em que os leitos ficam espalhados pelos corredores, naquele  em que mendigos maltrapilhos  mal-cheirosos  vencidos pelas agruras da vida se sentam no banco de espera e ficam até o momento em que o cansaço e a fraqueza  os vencem e eles caem para dentro do hospital.  Eles sabem que serão atendidos , receberão um banho, uma cama e alimento, o tratamento médico vem depois , naquele   em que a  proatividade ,  resiliência,  boa vontade  e por que não dizer  amor  superam em muito as impossibilidades .......

            Pensei muito sobre isso.  Sei que os sonhos são apenas projeções de nossa  mente  inconsciente tentando se comunicar com a parte consciente, um tipo de oficina de manutenção do hardware e software.  
      
          Sei que algo resolveu me atualizar para uma versão mais  nova aproveitando  o hardware barrigudo e fora de forma.

                                                             Banksy

  


Agradecimentos a todos.  

Abraços.


                 Emildo Avelar Gama.


                                   A   Árvore – Release 1.3

         
Era muito bom caminhar por aquela rua, a  calçada era larga, o local era tranqüilo. O andar deveria ser lento para podermos apreciar a beleza da paisagem.  Lembro-me que em um determinado trecho havia um pequeno muro não muito alto, mas muito longo. A  finalidade do muro não era esconder, mas demarcar os limites entre a calçada e o imenso e verdejante jardim de grama bem aparada. Era fácil ultrapassar os limites do muro e seguir por um dos vários pequenos caminhos pavimentados, não existiam placas escritas:  não ultrapasse o muro, proibido pisar na grama, siga por aqui ou ainda, siga por ali. Sempre preferi seguir por um  caminho que me levava ao centro.  Lá havia uma grande árvore. 

        Na rua não havia movimento de tipo algum, me parece que o local fora feito mesmo para um boa e tranqüila caminhada, aquelas em que  a mente vagueia distraída  e os sentidos percebem os sons, as imagens e o ambiente meio que no automático . Se aparecesse alguém a gente levaria um susto. 

         Eu ouvia uma música suave, ainda não descobri a origem dela, não importa, ela complementava o passeio e o tornava sempre mais agradável. Talvez outra pessoa passeasse por ali e levasse seu instrumento musical e exercitasse suas habilidades, o ambiente era propício para isso. Deviam ser várias pessoas, pois era uma  sinfonia composta por muitos instrumentos. Uma hora  encontro o caminho que me  levará  a elas, ou elas me encontrarão pelo caminho .........

        O fato é que um  dia, numa dessas caminhadas eu estava com muita fome e sede,  parecia que fazia uma semana  que eu não comia nem bebia nada. Como sempre, escolhi o caminho que me levava ao centro, em direção à árvore.

        Ao chegar lá, percebi que ali, bem no alto, estava a solução para a minha  fome e sede de desesperado: avistei uma fruta e, como não havia placas de proibido subir nem de proibido comer, resolvi me aventurar na escalada como uma criança que sobe num pé de goiaba para pegar algum fruto.

        A escalada prosseguiu bem.  Pensei : -  Logo vou alcançar o meu objetivo, porém, quanto mais eu subia, mais os galhos da árvore afinavam. Em determinado momento fiquei desconsolado  pois comecei a perceber que o que de início fora uma boa idéia, agora se mostrava impraticável, se eu prosseguisse o galho afinaria mais e quebraria.  O resultado de cair daquela altura era previsível.   Fome e sede me fustigavam e agora a frustração de não pegar a fruta, me incomodava um pouco mais.  Procurei encontrar uma solução  para o impasse, talvez se eu cutucasse a fruta com um galho ela cairia, eu desceria e a pegaria, mas observando a fruta notei que ela parecia ser muito suculenta e macia e se caísse  ela se despedaçaria e eu continuaria com fome e sede. Não, essa não era a resposta , talvez se eu dobrasse o galho onde  a fruta estava, já que ele era fino, eu a apanharia, mas meus braços não a alcançariam, talvez se eu quebrasse o galho eu a traria para minhas mãos, mas o galho não era tão fino assim pois ele ainda suportava o peso do meu corpo, talvez se eu balançasse o galho e a fruta caísse eu a pegaria no ar, a possibilidade de isso dar certo era mínima, eu estava ficando sem opções e a fome e a sede me fustigavam mais e mais, ficava cada vez mais difícil pensar e encontrar a resposta. A pressão era muita e no momento meu equilíbrio emocional já se fora fazia algum tempo. Bem, o jeito era descer e pensar mais calmamente como resolver isso. Essa foi a melhor maneira que encontrei no momento. Estava decidido, eu iria descer e pensar mais calmamente. Meu tempo de passeio estava se esgotando, eu teria de retornar para o lugar de onde eu viera. Caramba , eu retornaria com fome e sede.

        Fazer o que, o jeito era descer e ir embora.

       Lá pelo meio da descida encontrei um galho atravessado no galho em que eu ia descendo, parecia que o galho aparecera por ali , eu não me lembro dele enquanto subia, penso que não prestei muita atenção, pois o galho não poderia ter aparecido do nada, o fato era que ele estava ali , na pressa e na ânsia de matar minha fome e sede não percebi, mas ele estava ali o tempo todo. Resolvi descer por aquele novo galho, simplesmente por que ele estava ali  o tempo todo e eu não o havia percebido.

    Aquele galho me levou a uma outra árvore carregada com os mesmos frutos daquela em que eu estivera  ainda a pouco. Macios, suculentos. Comi muito, muito, muito. Eles eram macios e suculentos.   Fiquei saciado, a ponto de minha barriga estufar.


Quando retornei ao lugar de onde eu partira para meu passeio habitual, não sentia mais fome e sede alguma . Não almocei  nem jantei, naquele dia eu estava saciado .....



Abraços.

             Emildo Avelar Gama.







                          Aos Mestres - Release  1.3


       Na parede em frente às mesas havia um quadro. A tarefa era bem simples, cada um tinha que dizer que cores viam, que figuras, e se elas formavam objetos. Era moleza, era só falar.... Um sinal  sonoro, um intervalo de 15 minutos. Recreio. Correr, pular, brincar e suar. Suar bastante. Voltar.

    Aprendemos que no quadro haviam cores - verde, branco, azul, amarelo - que haviam figuras geométricas - retângulo, losango, círculo e uma pequena faixa branca ....

    As mesinhas eram organizadas em fileiras e colunas  4 x 3 no total 12. Uma mesinha e uma cadeira para cada criança. Em frente às mesinhas uma mesa e uma cadeira um pouco maiores, ali ficava a “profa”. Três janelas amplas do lado esquerdo da sala davam luminosidade e arejavam o ambiente, mostravam também um pátio retangular onde existia uma palmeira plantada quase encostada ao muro que circundava toda a escola.  Haviam muitas outras salas mais nenhuma delas possuía uma paisagem igual ao da minha janela. Uma palmeira da qual se via apenas o tronco.

    No caminho de volta para casa expliquei ao meu avô que a gente vivia em um quadrado cheio de mato verde e que dentro do quadrado havia um losango todo feito de ouro e dentro do losango tinha uma bola que era o céu e nele tinha estrelas e uma ponte que a gente atravessava em fila e dava tudo certo. Bem , me lembro que ele sorriu e disse que as coisas eram mais ou menos assim....
   
    Se alguém tentar te convencer disto ou daquilo você deve primeiro duvidar e depois deve tentar entender e compreender suas idéias.

    Introduzindo um certo fator mutagênico na cadeia cromossômica, o DNA sofre  uma alteração em suas bases, passam a produzir proteínas em espiral em vez de cadeias protéicas lineares, os telomeros replicam com exatidão a nova seqüência genética. As novas cadeias protéicas ficam com a mesma massa  e ocupam os mesmos espaços físicos das cadeias anteriores porém produzem uma resposta qualitativa e quantitativa superior.         Engendramos
a síndrome das proteínas espiraladas, nunca mais haverá hipertrofias, distrofias ou insuficiências cardíacas. Este é meu legado para a posteridade....

    Lembro-me que em meu oitavo aniversário ganhei um quebra-cabeças gigante de 10.000 peças e que meu avô fizera uma mesa onde pusera um tabuleiro de mais ou menos 1 x 1 metro , onde a gente ia aos poucos juntando as peças. Aos domingos, pela manhã depois de correr e brincar. Um banho, uma roupa limpa, um café farto e outra atividade. Durante certo período, era quase sempre assim nos finais de semana, buscávamos as peças, experimentávamos, por vezes elas se encaixavam,  mas as cores e figuras não se correspondiam portanto a peça não era a certa então nova busca pela peça perfeita ....

   Aprendi paciência, atenção e persistência e que certas coisas são feitas aos poucos, elas estão ali é só descobrir onde estão e juntar...

    O quadro agora era diferente, era uma paisagem com  árvores e um lago onde alguém estava dentro de um barquinho e esse alguém pescava.  Era moleza, era só falar....  Lá no finalzinho do lago tinha uma estradinha meio torta que levava quase até porta de uma casinha e em frente à casinha tinha um montão de cores, cores que eram flores.... .

    Aprendi que misturando tintas podíamos inventar novas cores.

    Percebemos que no quadro chovia um pouco e as gotas d’água formavam círculos onde caíam, os galhos das arvores estavam um pouco curvados e as folhas estavam agitadas porque ventava, e que agora na superfície do lago tinha umas ondas, mas ventava pouco porque o homem de chapéu continuava a pescar sossegado.     Percebemos que no lago tinha umas imagens das árvores de cabeça para baixo, o pescador e o barco também estavam de cabeça para baixo. A superfície do lago era como um espelho....

    Vi que na casinha tinha uma vovó e que ela esperava o pescador trazer o peixe para ela fritar e almoçarem  todos juntos com a criança que brincava lá no chão montando um  quebra-cabeças... Contei para meu avô.


    No caminho de volta para casa também expliquei a ele de um quadro que contava uma estória de um lugar lindo e um pescador que pescava.  Perguntei a ele como um cego poderia ver um quadro. Lembro que ele parou, me olhou com um brilho úmido dentro dos olhos e respondeu .  –  Bem, penso que ele faz como você quando viu a vovó e a criança que brincava dentro da casa .... 
    


                                                                                                                 Abraços.
                                                                                                                  Emildo Avelar Gama.


                      Poças D’água  -  Release 1.0



.......pular  nas pequenas poças d’água que se formavam na calçada , chutar uma pequena pedra , ou  meter uma bica numa tampinha de garrafa e vê-la titilando rodopiar  para longe , fazia parte do caminhar rumo à escola, ela  não era muito distante do consultório médico  onde minha mãe trabalhava  e eu já tinha idade suficiente para ir sozinho.       Eu estudava no período da manhã e ao retornar da escola – por volta de meio-dia – , ficava ali até a hora dela  fechar o consultório e irmos para casa.

        O sapato de couro preto, as meias brancas, o calção azul marinho, a camisa branca de mangas curtas, a pequena gravata azul marinho,  o distintivo com o nome da escola que era preso habilmente por um alfinete no bolso da camisa, uma blusa de lã azul marinho, faziam parte do uniforme escolar ......


       Certa vez, enquanto papai  dava uma engraxada nos meus sapatos comentou  com mamãe  que não sabia porque eles duravam tão pouco - penso que ele sabia sim – eu estava ali perto e entendi muito bem que  o assunto era dirigido a mim. Nessa época os sapatos eram muito caros e nosso dinheiro era pouco. Sim, entendi o recado.  Poças d’água, pequenas pedras, tampinhas de garrafa e tudo que fosse chutável eram iguais a  sapatos esfolados  .......


        
       
Papai alugara um pequeno quarto nos fundos de um bar e ali montara sua oficina, o lugar era estratégico,  os usuários do local  quando sentiam necessidade de usar as instalações sanitárias  que também ficavam lá nos fundos, descobriam que ali  havia uma “lojinha” de consertos de eletrodomésticos, isso era bom para o proprietário do bar e também para meu pai. Falando sinceramente o lugar não era bom, mas  o preço barato do aluguel  transformava o laboratório de consertos do “Doutor Frankenstein”  um sonho realizável.  Ele  tinha muita habilidade para consertar ferros de passar roupa, liquidificadores, rádios,  vitrolas, radinhos de pilha e televisores, que além de caros eram muito raros, essas coisas valiam a pena serem consertadas.  Lá em uma  das paredes havia um cartaz  com letras grandes que diziam.: - Aparelhos consertados serão mantidos guardados apenas por um mês ..... A oficina era pequena e algumas pessoas simplesmente não retiravam seus aparelhos,  era necessário para os negócios manter algumas regras. As habilidades dele iam além dos aparelhos domésticos, ele entendia de instalações elétricas, mecânica de máquinas pesadas e além de excelente motorista, é claro, era meu melhor amigo. Uma instalação aqui  outra ali ou um aparelho para consertar, era assim que ele mantinha a família..... 
( http://pt.wikipedia.org/wiki/Frankenstein ) 


       Nossos recursos financeiros eram parcos, por isso mamãe foi trabalhar naquele consultório médico. Era sempre a primeira a chegar, abria  o consultório limpava as salas,  higienizava os equipamentos e utensílios de  trabalho, organizava e atualizava a agenda do médico quanto às consultas e retornos, ligava para os pacientes relembrando-os das consultas , recebia os valores das mesmas , controlava  um pequeno estoque de materiais de limpeza e gêneros alimentícios, servia pequenos lanches, cafezinho, chás ou suco , mantinha as contas de água, luz, gás, condomínio em dia e ao final do expediente quase sempre fechava o consultório.

        Era ali que eu ficava após a aula até a hora de irmos para casa .....

                                                                      Abraço.                                                                                                                                                                Emildo Avelar Gama.



                             Folhas  - Release 1.0




      Ás vezes enquanto caminho, sigo orando em baixo tom para não chamar a atenção, quem  vê pode até pensar que sou desvairado pois imagino que pensam que falo sozinho. Ontem uma criança talvez de 4 ou 5 anos que brincava na calçada com umas folhas que a seringueira lhe havia presenteado me ofertou uma delas, era tudo que ela tinha e partilhou comigo, uma  folha de seringueira amarelada.....
       Agradeci a ela com oque eu tinha também para ofertar. Uma bênção e o meu melhor sorriso.....
       Guardei a folha no bolso e segui  a caminhada, orando em baixo tom para não chamar a atenção ....

                                                                                                                        Abraço.

                                                                                                                         Emildo Avelar Gama. 


                             Palavras  –  Release 1.0

Uma letra,
outra letra,
mais uma letra,
assim vão se formando as palavras.
 Palavras são como elos de uma corrente,
Os elos vão se unindo transformando-se  em mágica .
Unem ou separam conforme o mágico.
Não sei se objeto se transforma em palavra
ou se palavra se transforma em objeto.
Sei que nas mãos de letrados ignorantes transformam-se em armas.
 Usadas para humilhar e  magoar, ferem e matam.
Aqui não existe rima nem métrica.
Não estou fazendo apologia a  um idioma mal falado
Mas é preciso saber  que nem todos tiveram a mesma oportunidade.
Talvez o que exista aqui,
Seja apenas uma certa   sonoridade.

É certo que em determinados momentos é preciso formalidade, mas convenhamos o nosso idioma  possui cerca  de 435.000 mil palavras se considerarmos os termos técnicos  aumentam para umas  550.000 mil ,o que o  transforma  em terreno pantanoso mesmo para os esmiuçadores de textos.

De qualquer forma sejamos diplomáticos  ......

Ref.:  John Robert Schmitz

                                                                                                                                                                                         Abraço.
                                                                                                                                 Emildo Avelar Gama.



                                                 Tempo – Release 1.1

 - Chame seu aplicativo e veja que horas são.
   Não tem aparelho móbile?  Mas sabe que horas são ?  Não?
Então pergunte a alguém.
- Conseguiu saber que horas são?? A pessoa que passou  perto de você disse que eram 9:52. Que coisa hemmm e nem agradeceu néh??
 - Faltam 8minutos para as 10 horas?  Aproveite, você tem mais oito minutos de sol !!!
Não se preocupe , nada aconterá a você, eu o protegerei . Tá pensando que estou brincando néh,  sou um maluco . Humm, resolveu participar da brincadeira, levar  a conversa adiante, com louco é melhor não contrariar.. KKKKKK.  Como é que sei disso?? Ora, o evento já aconteceu ou seja o sol já apagou , ele está   8 minutos em seu passado.  Está  bem , vou acendê-lo de novo e vou permitir que você conte a outros o que aconteceu.  Hehehehe...

- Caraca, meu Deus o sol piscou!!  Mas quem é você afinal ?!

- Sou o que Sou. Saberá o que houve e contará a outros.... mas não saberá o porquê ....

                                                                                                                             
                                   Abraço.
             Emildo Avelar Gama.                                                                                                               


Camila  –  Release 1.0


          As outras crianças riam do meu nome, achavam estranho e isso era motivo de gargalhadas  e chacotas  rotineiras.  Um dia Camila explicou para a sala o que meu nome significava .... Começou assim : - Nossa esse é o nome mais lindo que já vi, significa : -  O senhor do lar abençoado ama Deus.  Camila , minha professora de português,  ficou tão grande que quase não cabia em meu coração ....

                                                                                                                                   

                                                                                                                                   Abraço.

                                                                                                                         Emildo Avelar Gama.



A Peça    -   release 1.1


      O autor foi muito feliz em escrever aquela peça, fazia um sucesso tremendo, tanto é que era representada pelo grupo de atores  quatro vezes ao dia. Pela manhã era destinada às crianças, a tarde para os adolescentes, no princípio da noite para jovens adultos  e já bem tarde da noite para adultos mais maduros, sempre com os diálogos adaptados de acordo com a faixa etária. A cada 15 dias era representada uma só vez durante o princípio da noite com os diálogos e interpretações mais densas, para um público especial.  
    A peça era sempre a mesma com  vantagem que se podia escolher o horário que mais se adequava à pessoa. Pela  manhã, de tarde, no princípio da noite , um pouco mais tarde ou uma apresentação especial para um público diferenciado  , a cada 15 dias  .............

Abraço.
Emildo Avelar Gama.                                                



Contos Tupiniquins   ....


                                  Origem  do Povo Tupiniquim   -  release 2.0

Ao entrar ali na agência de viagens  e ver no elaborado  cartaz a linda paisagem, um misto de tesão e curiosidade invadira sua  mente,  quebrando o condicionamento de anos de prática de auto-controle planejado. O efeito causado   pelo  marketing e propaganda fizera bem o trabalho e já o estava dominando.  Como ser motivado por mensagens  visuais, tornou-se prioridade em sua vida conhecer aquele lugar, mas antes era preciso conhecer um pouco da vida e história daquelas paragens alienígenas .....

       No mundo alternativo  XX  a sagrada  Araponga Dourada  pousou sobre a terra e a terra era terra roxa e da terra nasceu Jaci .  As plantas, as árvores, os animais, os peixes  e tudo em todas as direções à sua volta  lhe pertenciam .  Jaci  andava nua pela  floresta . No princípio isso era bom mas com o passar dos dias Jaci começou a se sentir sozinha e isso a entristecia. Um dia  enquanto Jaci dormia  a Araponga Dourada  penalizada com sua solidão atendeu aos  seus anseios ,  soprou seu ventre e dele nasceu Peri . Qual não foi a sua surpresa ao acordar e ver alguém ali   ao seu lado.  Enfim  não estava só, agora havia Peri  para  partilhar da floresta e então  Jaci agradeceu à Araponga Dourada .  Jaci e Peri andavam   nus pela floresta.  
    Peri  às  vezes  passeava  sozinho  e investigava, tudo que encontrava entregava  para Jaci.  Certa vez encontrou uma planta que nunca havia visto   e  ao cavar a terra para arrancá-la  e  levá-la  para Jaci  encontrou a mandioca  e então resolveu levar apenas a raiz  para sua companheira .  Ali não se sabe de onde surgiu  um bicho estranho e Peri com o espírito investigativo que a Araponga Dourada  o privilegiara  perseguiu o animal  pensando em capturá-lo e levá-lo  também para Jaci  –  hoje é meu dia de sorte –  , mas a Aranha Cabeluda era rápida e ardilosa  e  sempre que Peri se aproximava com a mandioca na mão a Aranha Cabeluda corria e se escondia até que Peri cansado da perseguição adormeceu  por ali  segurando a  raiz  que pretendia levar  para Jaci.  Jaci  o encontrou assim , meio adormecido com a mandioca na mão e  enquanto o observava   a  Aranha Cabeluda apareceu e disse para ela:  - Jaci , acorde Peri  e prove a raiz  proibida  e ela tentada acordou Peri e então provou da mandioca.        A  partir desse dia  a  Araponga  Dourada  criou inimizade entre Jaci e a Aranha Cabeluda e expulsou Jaci e Peri  da floresta e decretou: Andarão pelo mundo e gerarão o povo tupiniquim. ......

     Um guia turístico bem remunerado ajudaria bem .....

Trecho extraído do Vaso de Cerâmica Sagrado Tupiniquim
Encontrado por arqueólogos do Antigo Império  em 5732  A.F

nota do autor.     Tenho certeza que se Mário de Andrade aqui estivesse, faria Macunaíma – Um herói sem nenhum caráter – transitar de maneira muito mais brilhante, elegante e literária pelos Contos Tupiniquins do que este torturado pseudo-literato que aqui vos fala.



Abraço.
Emildo Avelar Gama.

Atenção ao golpe proposto na calada da noite por meio de decreto !
 
Estratégia  Nestoriana - Release 1.0

       Quando o palco  estiver armado deve-se exibir para o adversário as melhores armas e o orador deve exaltar as qualidades de seu  exército e incitá-los para a batalha. À frente colocam-se  os carros de batalha   fortemente escudados e armados, atrás desses deve vir a infantaria com os mais valentes e fortes, no meio devem vir os covardes  porque quando estiverem cercados e não tiverem mais opções lutarão pela própria  vida  , atrás de tudo isso estarão um pequeno grupo de conselheiros  e o “sacana general ” , que em caso de derrota  fará acordo com o inimigo  .      Homéro , escritor grego  - século VII a.C  -  ,deu vida  ao seu personagem Nestor transformando-o no mais brilhante estrategista da época. A   Ilíada  é um poema épico grego que narra os acontecimentos ocorridos no período de pouco mais de 50 dias durante o décimo e último ano da Guerra de Tróia. 
     Muito da estratégia Nestoriana é empregada nos tempos contemporâneos , nos mais variados setores  da sociedade ......

Abraço.
Emildo Avelar Gama
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3 comentários:

  1. Emildo, bom dia

    Parabéns pelos textos.
    Muito inspiradores.

    Rodolfo

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    1. Bom dia, caro amigo.
      Que bom que você conseguiu acessar, grato pelos comentários. Penso que posso melhorar a apresentação estou pesquisando novos layouts e gadgets ......

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  2. Potrus, o centauro pediu para postar novamente a foto da Potranca. Quer saber quem é Potrus?? Hummm , então leia Artemis Fowl - O menino prodígio do crime – do autor irlandês EOIN COLFER...
    Cuidado o moleque tem 12 anos e é tipo James Bond, passa o rodo geral na bandidalha. Na estória tem fada, raios laser, troll, anão, água benta , mas vocês vão ter que procurar o PDF na NET.

    PS. Caro Potrus enviarei a foto diretamente para seu e-mail....

    Tive um amigo que tinha uma biblioteca enorme , ele às vezes tinha o costume de presentear amigos com livros, tive sorte ganhei um.....

    Abraço.
    Emildo Avelar Gama.

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Responderei assim que puder.

Estou em fase de testes.
Grato.
EAG.